Ao meu pai preto: Obrigada por me ensinar o que é ser Preta!
Foto: Arquivo Pessoal

Neste momento, para e pense um pouco: tente imaginar a figura de um pai, parceiro, herói, sábio, que é amigo, presente, que ama seus filhos, e que cuida deles mais do que cuida de si mesmo. Qual pai vem a sua cabeça? Bom, na minha vem o meu pai. Buscando na memória todos os momentos significativos da minha vida, aqueles que me fizeram esboçar as maiores emoções, sempre me vêem uma pessoa à cabeça, a que esteve comigo segurando a minha mão: meu pai Ronderlei! Ao se ver sozinho, ele pegou seus dois filhos, olhou nos olhos deles, e disse: “ Agora somos só nós três, sempre para sempre”, e assim tem sido nesses últimos dezessete anos. 

Agora novamente pare e pense como é importante para uma criança, ou melhor, para uma menina negra ter seu pai como seu maior exemplo de representatividade e resistência? Sim, eu também me encaixo nisso. Ele conta a história que ao me pegar no colo pela primeira vez, ele já sabia o que eu me tornaria. Ele nunca omitiu, que o mundo para uma mulher preta seria fácil, nunca nos criou (eu e meu irmão) falando, mas sim com exemplos, e ele nunca se permitiu errar, apesar de ter errado. Toda dor  que ele vivenciou, pelo simples fato de ter a pele escura (pois afinal vivemos em uma sociedade racista), ele nunca permitiu, ou pelo menos tentou,  que nós vivêssemos. Dói e é traumático para uma criança passar por racismo, sem ao menos saber o que significa essa palavra, mas ele viveu.Teve que construir sua identidade racial sozinho, teve que lutar por direito, numa época que essa palavra não estava tão em pauta para os negros. Batalhou para que chegasse o momento de hoje, eu com todos os privilégios, pudesse viver a plenitude da minha ancestralidade, com requintes de detalhes. 

Descrevo aqui hoje um cenário diferente em relação a muitas meninas pretinhas, por isso posso usar a palavra privilégio. Diferente da maioria, tive uma família negra estruturada, emocionalmente, psicologicamente, que passou valores e princípios que me fizeram chegar até aqui. O primeiro desafio do meu pai foi criar filhos negros em uma sociedade, onde o racismo está esperando logo no portão. E, pensar o tempo todo, que você tem que preparar sua cria para ser forte e enfrentar tudo isso de frente. Por tanto eu falo: “papai teve um dos maiores desafios da sua vida: ser Pai!”

E quando falamos em paternidade, creio que ela é uma das relações mais destruídas pela escravidão. As inúmeras reclamações de muitos filhos negros, sobre a ausência dessa figura paterna não é algo atual. Ela dura a mais de 400 anos. Durante todo o tempo da escravidão, esse pai negro, na condição de escravo, era um”reprodutor”: um homem preto era escolhido e obrigado a engravidar dezenas de mulheres com as quais, mais tarde, ele não teria nenhum contato. Muitos, porque não dizer a maioria, tentaram lutar contra isso, mas não conseguiram. Por conta do sistema escravista e desumano, o filho não era dele, mas uma propriedade do senhor de escravo branco, que também era dono da mulher a qual ele fez o filho; dona da terra onde ele pisava e trabalhava, aliás de tudo! Por isso burlando toda essa carga histórica, o que tornou meu pai mais homem, não foi a habilidade de criar filhos, mas sim a coragem de criar e passar os princípios como ele passou.

Então ao meu pai preto digo: viveria tudo outra vez, tudo sem tirar um dia,  pois eu sei que quem vai estar ao meu lado segurando a minha mão, será o senhor! E se um dia tiver filhos, quero que eles tenham o privilégio de te conhecer, pois aí eu ficarei tranquila e terei a certeza que eles se tornarão seres humanos incríveis. Obrigada. Eu te amo, além do fim!